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A saúde mental e o fenômeno da demissão silenciosa

Nos últimos dias tem ganhado notoriedade nas redes sociais matérias sobre o tema “demissão silenciosa”, uma onda que tem ganhado força, principalmente nas gerações mais novas, quanto a execução de tarefas requeridas pelo seu trabalho, e nem um passo além disso. O movimento, apesar de mal visto pelos gestores, que se frustram com a falta de empenho de seus funcionários, tem um caráter ideológico forte e se relaciona com a manutenção da tão procurada saúde mental, evitando grandes desgastes e prevenindo o famoso “burnout”, que tem se tornado cada vez mais comum. Vamos explorar como essa tendência tem se manifestado e porque, trazendo para a questão um olhar da neurociência e do bem-estar para a saúde mental.

O que é demissão silenciosa

Contexto social e econômico

Com a facilitação da comunicação pelo surgimento de novos aparatos da tecnologia, por exemplo através da disseminação da internet, computadores pessoais e telefones, as décadas mais recentes têm se caracterizado por gerações que normalizam e até romantizam o excesso de trabalho.

Nos dias atuais, nunca estamos desconectados. Com smartphones no bolso, estamos sempre a um toque de distância de tudo e de todos, o que inclui também o trabalho. Com a pandemia, isso se tornou ainda mais comum, uma vez que forçou grande parte das empresas a adotarem um regime de trabalho remoto e online, no qual o controle de horários é muitas vezes tênue e embaçado.

Além disso, especialistas caracterizam as últimas décadas por constantes períodos de crise econômica e recessões, o que faz com que as gerações mais novas muitas vezes não tenham segurança trabalhista e financeira (e talvez nem mesmo oportunidades) como tiveram as gerações de décadas atrás, que se encontravam num período de crescimento econômico. Adicionado a isso, constantes aumentos e impossibilidade monetária de sustentação fazem o trabalhador se contentar com condições cada vez mais precárias.

A reação do trabalhador

Assim, espera-se dos funcionários uma constante disponibilidade, que podem a princípio ser para situações emergenciais, mas que acabam se tornando rotineiras. É esperado, em grande números de empresas, que os colaboradores façam aquele “passo a mais” em suas profissões, mesmo que não seja parte do contrato.

Essa questão que normalmente seria caracterizada pela proatividade, deixa de ter esse caráter quando passa a ser uma exigência. Dessa maneira, os funcionários, cada vez mais frustrados com a falta de reconhecimento (e remuneração) pelos seus excessos esperados, acabam procurando vias alternativas.

A demissão silenciosa (do inglês quiet quitting, podendo ser traduzida também como desistência silenciosa), como ficou conhecido o movimento de fazer o mínimo requerido contratualmente, tem ganhado espaço como uma dessas alternativas.

Este fenômeno, entretanto, não significa não fazer o seu trabalho, ou fazer outras atividades enquanto está no seu horário de contrato. É na verdade uma onda que leva as pessoas a procurarem manter uma vida além do trabalho, e não viver apenas para ele. Significa pegar as rédeas de sua própria vida e não deixar com que sua empresa controle isso.

A ligação com uma nova ideologia

Assim, diferentemente da geração X e até mesmo dos Baby Boomers, que se devotavam aos seus trabalhos, os novos adultos começam a questionar esse excesso de carga pelo o que realmente é: uma forma de exploração.

A democratização das ideias de que o trabalho dentro de um sistema capitalista nada mais é que a exploração do sistema de mais valia, gerando um acúmulo de riquezas que para eles não é revertido, impulsiona os jovens a se rebelarem contra este modelo de aproveitamento. Esta mudança cultural vê os workaholics como vítimas de uma maquinaria de constante exploração, que se veem reféns de sua empresa pelo medo da instabilidade sem ela.

Além disso, o movimento se alia ao episódio da Grande Demissão, marcada pelo aumento do número de demissões reportado nos últimos anos. Isso porque funcionários estão começando a se enxergar como cidadãos. Se guiam então por valores morais em prol de uma sociedade coesa, e não para grandes corporações. Alguns motivos ainda incluem a luta pela equalização de salários para funcionários no mesmo cargo por motivos sociais. Entra em jogo também as exigências descabidas e a falta de flexibilidade de prazos e horários.

Por que não precisa ser mal vista entre os gestores?

Acostumados com funcionários que consentem com a sobrecarga de trabalho sem a devida remuneração e reconhecimento, o movimento vem de frente às noções já estabelecidas de ampliação da margem de lucro pela empresa. Assim, os benefícios monetários que antes a companhia teria pela indevida dedicação dos funcionários deixam de existir, e os gestores precisam encontrar meios de compensar essa atividade.

É obrigação legal dos empregadores conceder um ambiente de trabalho que atenda às condições mínimas de segurança e de trabalho, além de condições de saúde que acobertem questões psicológicas. O equilíbrio entre vida social e trabalho é fundamental para a manutenção de um bom desempenho no trabalho. Conceder esses requisitos mínimos é na verdade benéfico também para os empregadores, uma vez que sob as condições adequadas de trabalho, a produção aumenta. Vamos explorar um pouco mais no próximo tópico.

Benefícios para a saúde mental

Dizer não, nesses casos de ligações fora de hora, excesso de carga horária e serviços fora do escopo de contratação, é uma atitude saudável para o seu corpo e sua mente. Por priorizar uma boa relação entre vida profissional e vida pessoal, a demissão silenciosa pode ser um fator de manutenção da saúde do colaborador. Passando apenas o tempo necessário dedicado ao trabalho, balancear outros aspectos do cotidiano se torna mais fácil. É possível promover então exercícios físicos, tempo para preparo adequado de refeições e não consumo de fast foods, horários de descanso adequados que garantam o bom funcionamento do sistema, além de diminuir assim os níveis de estresse tão prejudiciais.

Além disso, essa imposição de limites entre esses aspectos da vida é capaz de melhorar a auto-estima do colaborador. Isso acontece porque quando o trabalho se torna o principal aspecto de sua vida, frustrações profissionais podem ser internalizadas como falhas pessoais. Isso também influencia nos níveis de ansiedade do indivíduo.

Os benefícios em se evitar o burnout

Essas medidas vem também para a prevenção do aumento do número de casos que tem se observado de esgotamento profissional, o famoso burnout. Este, reconhecido pela Organização Mundial da Saúde como um fenômeno ocupacional, caracteriza-se pelos sentimentos de exaustão, distanciamento mental, piora do desempenho, tendo malefícios tanto para os empregados quanto para os empregadores.

Funcionários mais felizes são mais produtivos, e esse equilíbrio pode auxiliar nos níveis de felicidade. Aumenta-se então a satisfação no trabalho, aumentando em número mas também em qualidade os laços formados, bem como diminuindo a competitividade com os colegas de profissão. Essa sensação de pertencimento que pode ser gerada ajuda também no quesito de lealdade à empresa, melhorando o desempenho profissional.

“Em vez de ficarem nervosos com a perda de produtividade, os empregadores devem aproveitar este movimento de demissão silenciosa para apoiar o bem-estar de seus funcionários” – BBC news.

Referências

https://www.bbc.com/portuguese/geral-62634185

https://canaltech.com.br/mercado/demissao-silenciosa-saiba-o-que-e-e-como-a-lei-brasileira-ve-isso-224180/

https://www.terra.com.br/economia/dinheiro-em-dia/demissao-silenciosa-especialistas-esclarecem-a-quiet-quitting,05e1fd992874e0aec3247deaee7d17566ypt6cd1.html

https://www.istoedinheiro.com.br/demissao-silenciosa-um-grito-a-ser-ouvido-pelos-gestores-e-empresarios/

https://www.cut.org.br/noticias/conheca-o-movimento-de-demissao-silenciosa-que-ganha-forca-entre-os-jovens-19cd

https://www.istoedinheiro.com.br/demissoes-silenciosas-ecoam-em-empresas-dos-eua/